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segunda-feira, 19 de março de 2018

Um brasileiro, por terras confederadas, em uma máquina italiana. Paixão por demais.

Pela segunda vez um grupo de Brasília decidiu ir ao renomado Concours d’Elegance de Amelia Island, já em sua 23a edição. Isso gerou a oportunidade para realizarmos uma experiência com o Turo.com, um sistema que se pretende o Air B’n’B ou o Uber da locação de automóveis. Tem um carro e não usa todos os dias? Compartilhe!

Já em outubro de 2017, com o evento em vistas, começamos a verificar a possibilidade de se conseguir um carro italiano para usar na Flórida durante o período do evento com o Turo. O parceiro na aventura era o Alfista desalfado de Brasília, Marco Paulo Carvalho Baptista de Oliveira, das nobres e tradicionais famílias das Alterosas.

Como as Alfas Romeo não são tão comuns por terras americanas, havia nesta época apenas uma Giulia ti para locar e eu já tinha rodado com uma por milhares de quilômetros na Espanha, a nossa ideia inicial era uma Ferrari ou Maserati. Nas primeiras pesquisas ficamos entre uma Ferrari California (U$ 640 por dia) ou uma Maserati Gran Turismo (U$ 540 por dia), ou ainda uma opção em que poderíamos carregar alguma bagagem e fosse menos dispendiosa mas igualmente visceral, uma Maserati Ghibli (U$ 300 por dia). Ao final ficamos com a Maserati de 4 portas pela comodidade.

O evento foi se confirmando, alguns bilhetaram as passagens e chegou o momento de decidir pelo tapete mágico. Entrei novamente, olhei todas as Ferraris e Maseratis disponíveis e bingo. 4 portas é o C*****, achei uma California do jeitinho que pensamos. Como diria o Sultão do Indiana Jones: “And I even like the color”.

Cadastro feito, formulário integralmente preenchido, cartão aceito, faltando apenas apertar o botão para prepararem o cavallinho rampante. Mas o coração alfista tem seus caprichos. Jamais me perdoaria se não desse mais uma chance a Casa Del Biscione, ali à beira daquele precipício do prazer automotivo. Abri nova janela no aplicativo, mantendo o equino no curral, e a magia aconteceu. Veio quase todo em fibra de carbono e perolado como se recém saído de uma perfeita ostra de Burma. Mandei as favas o alazão, abri a porteira para que ele procurasse novo cavaleiro. Me joguei.

Alguns me perguntaram como eu abri mão de um V8 por um 4 cilindros, de uma Ferrari! Quem me pergunta isso não merece sequer resposta.

O dia foi 19 de janeiro de 2018. Após a confirmação mandei mensagem de apresentação: “Olá, sou um alfista do Brasil e sou fã incondicional da marca. Estou bastante entusiasmado com o aluguel de sua 4c. Estarei na Florida para o Amelia Island Concours D'elegance, de 9 a 12 de março e pretendo ir para lá com este carro. Sou um cara responsável e não se preocupe, cuidarei bem de sua filha”. Ante essa mensagem, assim, um pouco insana ele responde: “Understood, thank you for letting me know! You won’t be disappointed with the car, it’s excellent. Just don’t expect too much luggage space!”. Um pouco seco, mas ok.

Queria fazer surpresa para todos, e consegui não contar para ninguém que iríamos fazer essa locação, a não ser para os 1.327 amigos do círculo mais próximo. J   Agora vem a revelação.

Como aguentar por quase três meses toda essa ansiedade para chegar até a máquina? Rivotril que o diga. Não morri antes e vivi isso.

Na véspera da captura da besta selvagem quase não consegui dormir. A ansiedade era muito grande. Será que meu macarrônico inglês espantará o locador? “Me love your car big time”. Outro pensamento recorrente: “O tal Elliot pode ter me pregado uma peça e vai passar correndo por mim com o carro, rindo da minha cara”. Pensei até que esse Elliot podia ser uma trollagem do Malfitani. Veja bem! Ainda bem, toda essa confusão não nos fez esquecer de na véspera alugar uma Ford Explorer para levar as 18 malas... O seguro morre de velho.

No dia D Marco Paulo estava sentado em cima de uma mala XXXXXL+, tentando em vão fechá-la por horas. Dentro da mala via-se um rabo de sereia percolar a uma quina, impedidno o zíper de avançar. Pedi peloamordedeus para ele amarrar tudo com Silver Tape para saírmos. Era urgente. Pensei que poderia perder a minha janela de oportunidade. Estava aflito pois só tinha 3 horas de folga para cumprir aquelas 20 milhas que me separavam do sonho. Vendo minha aflição ele gritou: “Run Casé! Run!”.

Peguei o Uber e em 31 minutos cheguei, apenas 2,5 horas adiantado, ufa. Uma zona industrial, em Kissimmee, FL, o tal Elliot não estava lá. Pensei: "Smile. You're on Candid Camera".

Fui deixado do lado de fora de um gigantesco galpão onde lia-se: “East Coast Defender Co”. Qual a primeira coisa que vem a cabeça de alguém, aficionado por carros, quando vê a placa ao lado? “Deus por favor, sou um homem bom, me faça estar no lugar certo, que isso não seja coisa do Malfitani e me dê minha Alfa”. Claro... Mas também pode eventualmente pensar que alí pode haver coisa interessante. Tá no inferno, abraça o Capeta.


Entrei, comecei a olhar e descobri que a East Cost Defender (http://eastcoastdefender.com/) é uma empresa 100% dedicada a reconstrução total de Land Rover Defenders. Só Defenders. Eles compram sucatas destes automóveis pelos Estados Unidos e pelo mundo, desmontam inteiramente e refazem tudo outra vez. Para começar reconstroem o chassi, substituem o conjunto motriz por outro de Corvette (LS3 V8 de 6.2 litros), substituem transmissão, diferencial, freios, suspensão, tudo. Depois passam para o interior, aplicando nobilíssimos materiais ou “rugged stuff”, dependendo do gosto do cliente. Um projeto mínimo sai por por US$ 80.000, mas eles estavam finalizando um para astro do Baseball por US$ 310 mil. Andando por lá visualizei um Jaguar E-Type v12 em cima de uma pilha de carros para restauração e.... ouvi o ronco de usina Alfa!

Volto correndo à entrada e vejo o diminuto bólido se aproximando elegantemente, logo alí na esquina. Elliot, não Malfitani,  ao volante. Me impressiono com seu deslizar benfazejo, esguio e firme, saudável. O ronronar do motor em baixa rotação indica algo feroz. A cintura baixa lembrou o USS Monitor indo para a boca do canal de Hampton Roads triumfar. Senti o frio na espinha da marinha Confederada inteira de uma só vez.

Ele para, me reconhece da foto do cadastro e me cumprimenta. Entrega logo: é inglês de nascença. Midlands, com certeza. Faço perguntas sobre o business e ele cordialmente responde e me convida para ver tudo. Sem graça de dizer que estava interessado mesmo em ver a Alfa o sigo. Com o coração apertado passeamos pela linha de montagem deixando a 4c fora de visão. Mais alguns minutos de ansiedade extrema e voltamos.


Ele me apresenta sua filha, pergunto o nome e ele responde “4c”. Não tem nome? Ele mostra tudo, cada detalhe e cada dobrinha do corpo cheio de colágeno da adolescente máquina. Tudo está em ordem e imaculado. Tudo durinho. Me convida a entrar, eu vou com calma. Passei dos 40 e lembrava que no primeiro contato estático com uma de suas irmãs, em Amelia 2015, fui desajeitado e quase torci o joelho. Reconheço os pornográficos bancos vermelhos, sinto a textura e o cheiro, tento explicar em inglês o sentimento mas ele apenas rí. Não entendeu, ou já estava se arrependendo. Paro de falar, podia desistir de me deixar ir ou chamar os State Troopers. Disfarço e ele baixa a guarda. Volto a moça. Ligo o motor, o barulho é lindo. Acelero, mais lindo. Ele me ensina como “sair queimando”, e eu digo que jamais faria isso com uma moça de família. Ele ri. Me lembra que não tenho espaço para bagagem. Digo que não tenho bagagem. Ele diz: isso é tudo? Eu me vou.


Fato: a primeira impressão para quem não está acostumado a longas cavalgadas com égua puro sangue é de que tem algo errado. Um certo medo de cair da potranca. Os engrazamentos de marcha, as duplas debreadas robóticas, o zunido do turbo a encher, a explosão nas trocas. Tudo espanta e receia. Mas foi uma questão de tempo, rapidamente a timidez se foi e veio a vontade de ousar.

Indo ao encontro dos dois Marcos, Paulo e Conforto, companheiros brasilienses na jornada para o Norte, parei na rua umas 10 vezes para olhar o carro mais despudoradamente já que seu dono não estava mais presente. Realmente é lindo demais, sexy demais, demais. Eu tinha 1000 km pela frente, e parecia que seriam só flores.

Na estrada o carro é maravilhoso, na cidade também. Lí certa vez que cogitaram não colocar um stereo e ar condicionado. Mercadologicamente teria sido um erro. Quem disse, do ponto de vista do coração, tinha 100% de razão. O motor não faz barulho, toca uma sinfonia no volume 10, e roubar, mesmo que seja 1cv com polias e correias devia ser crime hediondo e inafiançável no Estado da Flórida. Mas eles estavam lá e não foram usados em homenagem ao anônimo voto vencido.

Suas arrancadas são dramáticas, seu desempenho em curva para mim foi único. Nunca dirigi nada minimamente parecido em todo o contexto. Dirigi carro grande com desempenho semelhante, Kart com curva igual. O carro é pequeno e leve, rebola ao bater do vento. Mínimas depressões longitudinais no asfalto, imperceptíveis em um Cadillac ou mesmo Kia Rio, tornam-se em ardilosas armadilhas para essa pequena notável. No fim o que mais me impressionou foram suas retomadas. O turbo enche rápido e despeja potência de sobra em sua tração traseira, onde devia estar, e a relação peso potência zera a inércia e o carro que já estava voando faz uma meta-decolagem para outra dimensão.

Podia falar do alto índice cadeira-elétrica causado pelo turbo lag, de seu banco de carro de corrida com “0” regulagem (bye-bye Presidento), ou ainda da improvável falta de necessidade de ter que trocar as cuecas eventualmente e tê-las deixado para trás, mas meus olhos cegos pelo amor não perceberam nada disso. Ficou o gozo e a satisfação de ter cruzado o Sunny State numa máquina tão incrível. Experiência extrema, ocupou o lugar mais alto no pódio das minhas experiências automobilísticas. Como a mulher da minha vida, é inigualável e inesquecível.