Pela segunda vez um grupo de Brasília decidiu ir ao renomado
Concours d’Elegance de Amelia Island, já em sua 23a edição. Isso
gerou a oportunidade para realizarmos uma experiência com o Turo.com, um
sistema que se pretende o Air B’n’B ou o Uber da locação de automóveis. Tem um
carro e não usa todos os dias? Compartilhe!
Já em outubro de 2017, com o evento em vistas, começamos a
verificar a possibilidade de se conseguir um carro italiano para usar na
Flórida durante o período do evento com o Turo. O parceiro na aventura era o
Alfista desalfado de Brasília, Marco Paulo Carvalho Baptista de Oliveira, das
nobres e tradicionais famílias das Alterosas.
Como as Alfas Romeo não são tão comuns por terras americanas,
havia nesta época apenas uma Giulia ti para locar e eu já tinha rodado com uma
por milhares de quilômetros na Espanha, a nossa ideia inicial era uma Ferrari
ou Maserati. Nas primeiras pesquisas ficamos entre uma Ferrari California (U$ 640
por dia) ou uma Maserati Gran Turismo (U$ 540 por dia), ou ainda uma opção em que
poderíamos carregar alguma bagagem e fosse menos dispendiosa mas igualmente visceral,
uma Maserati Ghibli (U$ 300 por dia). Ao final ficamos com a Maserati de 4 portas
pela comodidade.
O evento foi se confirmando, alguns bilhetaram as passagens
e chegou o momento de decidir pelo tapete mágico. Entrei novamente, olhei todas
as Ferraris e Maseratis disponíveis e bingo. 4 portas é o C*****, achei uma
California do jeitinho que pensamos. Como diria o Sultão do Indiana Jones: “And
I even like the color”.
Cadastro feito, formulário integralmente preenchido, cartão
aceito, faltando apenas apertar o botão para prepararem o cavallinho rampante.
Mas o coração alfista tem seus caprichos. Jamais me perdoaria se não desse mais
uma chance a Casa Del Biscione, ali à beira daquele precipício do prazer automotivo.
Abri nova janela no aplicativo, mantendo o equino no curral, e a magia
aconteceu. Veio quase todo em fibra de carbono e perolado como se recém saído
de uma perfeita ostra de Burma. Mandei as favas o alazão, abri a porteira
para que ele procurasse novo cavaleiro. Me joguei.
Alguns me perguntaram como eu abri mão de um V8 por um 4 cilindros,
de uma Ferrari! Quem me pergunta isso não merece sequer resposta.
O dia foi 19 de janeiro de 2018. Após a confirmação mandei
mensagem de apresentação: “Olá, sou um alfista do Brasil e sou fã incondicional
da marca. Estou bastante entusiasmado com o aluguel de sua 4c. Estarei na
Florida para o Amelia Island Concours D'elegance, de 9 a 12 de março e pretendo
ir para lá com este carro. Sou um cara responsável e não se preocupe, cuidarei bem
de sua filha”. Ante essa mensagem, assim, um pouco insana ele responde: “Understood,
thank you for letting me know! You
won’t be disappointed with the car, it’s excellent. Just don’t expect too much
luggage space!”. Um pouco seco, mas ok.
Queria fazer surpresa para todos, e consegui não contar para
ninguém que iríamos fazer essa locação, a não ser para os 1.327 amigos do
círculo mais próximo. J Agora vem a revelação.
Como aguentar por quase três meses toda essa ansiedade para
chegar até a máquina? Rivotril que o diga. Não morri antes e vivi isso.
Na véspera da captura da besta selvagem quase não consegui
dormir. A ansiedade era muito grande. Será que meu macarrônico inglês espantará
o locador? “Me love your car big time”. Outro pensamento recorrente: “O tal
Elliot pode ter me pregado uma peça e vai passar correndo por mim com o carro,
rindo da minha cara”. Pensei até que esse Elliot podia ser uma trollagem do
Malfitani. Veja bem! Ainda bem, toda essa confusão não nos fez esquecer de na
véspera alugar uma Ford Explorer para levar as 18 malas... O seguro morre de
velho.
No dia D Marco Paulo estava sentado em cima de uma mala
XXXXXL+, tentando em vão fechá-la por horas. Dentro da mala via-se um rabo de
sereia percolar a uma quina, impedidno o zíper de avançar. Pedi peloamordedeus
para ele amarrar tudo com Silver Tape para saírmos. Era urgente. Pensei que
poderia perder a minha janela de oportunidade. Estava aflito pois só tinha 3
horas de folga para cumprir aquelas 20 milhas que me separavam do sonho. Vendo
minha aflição ele gritou: “Run Casé! Run!”.
Peguei o Uber e em 31 minutos cheguei, apenas 2,5 horas
adiantado, ufa. Uma zona industrial, em Kissimmee, FL, o tal Elliot não estava
lá. Pensei: "Smile. You're on Candid Camera".
Fui
deixado do lado de fora de um gigantesco galpão onde lia-se: “East Coast Defender
Co”. Qual a primeira coisa que vem a cabeça de alguém, aficionado por carros,
quando vê a placa ao lado? “Deus por favor, sou um homem bom, me faça estar no
lugar certo, que isso não seja coisa do Malfitani e me dê minha Alfa”. Claro... Mas também pode eventualmente pensar que alí pode haver coisa interessante. Tá
no inferno, abraça o Capeta.
Entrei, comecei a olhar e descobri que a East Cost Defender (http://eastcoastdefender.com/) é uma empresa 100% dedicada a reconstrução total de Land Rover Defenders. Só
Defenders. Eles compram sucatas destes automóveis pelos Estados Unidos e pelo mundo,
desmontam inteiramente e refazem tudo outra vez. Para começar reconstroem o
chassi, substituem o conjunto motriz por outro de Corvette (LS3 V8 de 6.2
litros), substituem transmissão, diferencial, freios, suspensão, tudo. Depois
passam para o interior, aplicando nobilíssimos materiais ou “rugged stuff”,
dependendo do gosto do cliente. Um projeto mínimo sai por por US$ 80.000, mas
eles estavam finalizando um para astro do Baseball por US$ 310 mil. Andando por
lá visualizei um Jaguar E-Type v12 em cima de uma pilha de carros para
restauração e.... ouvi o ronco de usina Alfa!
Volto correndo à entrada e vejo o diminuto bólido se
aproximando elegantemente, logo alí na esquina. Elliot, não Malfitani, ao volante. Me impressiono com seu deslizar
benfazejo, esguio e firme, saudável. O ronronar do motor em baixa rotação
indica algo feroz. A cintura baixa lembrou o USS Monitor indo para a boca do
canal de Hampton Roads triumfar. Senti o frio na espinha da marinha
Confederada inteira de uma só vez.
Ele para, me reconhece da foto do cadastro e me cumprimenta.
Entrega logo: é inglês de nascença. Midlands, com certeza. Faço perguntas sobre
o business e ele cordialmente responde e me convida para ver tudo. Sem graça de
dizer que estava interessado mesmo em ver a Alfa o sigo. Com o coração apertado
passeamos pela linha de montagem deixando a 4c fora de visão. Mais alguns minutos
de ansiedade extrema e voltamos.
Ele me apresenta sua filha, pergunto o nome e ele responde “4c”.
Não tem nome? Ele mostra tudo, cada detalhe e cada dobrinha do corpo cheio de colágeno
da adolescente máquina. Tudo está em ordem e imaculado. Tudo durinho. Me
convida a entrar, eu vou com calma. Passei dos 40 e lembrava que no primeiro contato
estático com uma de suas irmãs, em Amelia 2015, fui desajeitado e quase torci o
joelho. Reconheço os pornográficos bancos vermelhos, sinto a textura e o
cheiro, tento explicar em inglês o sentimento mas ele apenas rí. Não entendeu,
ou já estava se arrependendo. Paro de falar, podia desistir de me deixar ir ou
chamar os State Troopers. Disfarço e ele baixa a guarda. Volto a moça. Ligo o motor,
o barulho é lindo. Acelero, mais lindo. Ele me ensina como “sair queimando”, e
eu digo que jamais faria isso com uma moça de família. Ele ri. Me lembra que não
tenho espaço para bagagem. Digo que não tenho bagagem. Ele diz: isso é tudo? Eu
me vou.
Fato: a primeira impressão para quem não está acostumado a longas cavalgadas com
égua puro sangue é de que tem algo errado. Um certo medo de cair da potranca. Os
engrazamentos de marcha, as duplas debreadas robóticas, o zunido do turbo a
encher, a explosão nas trocas. Tudo espanta e receia. Mas foi uma questão de
tempo, rapidamente a timidez se foi e veio a vontade de ousar.
Indo ao encontro dos dois Marcos, Paulo e Conforto, companheiros
brasilienses na jornada para o Norte, parei na rua umas 10 vezes para olhar o
carro mais despudoradamente já que seu dono não estava mais presente. Realmente
é lindo demais, sexy demais, demais. Eu tinha 1000 km pela frente, e parecia
que seriam só flores.
Na estrada o carro é maravilhoso, na cidade também. Lí certa
vez que cogitaram não colocar um stereo e ar condicionado. Mercadologicamente
teria sido um erro. Quem disse, do ponto de vista do coração, tinha 100% de
razão. O motor não faz barulho, toca uma sinfonia no volume 10, e roubar, mesmo
que seja 1cv com polias e correias devia ser crime hediondo e inafiançável no
Estado da Flórida. Mas eles estavam lá e não foram usados em homenagem ao anônimo
voto vencido.
Suas arrancadas são dramáticas, seu desempenho em curva para
mim foi único. Nunca dirigi nada minimamente parecido em todo o contexto. Dirigi
carro grande com desempenho semelhante, Kart com curva igual. O carro é pequeno
e leve, rebola ao bater do vento. Mínimas depressões longitudinais no asfalto, imperceptíveis
em um Cadillac ou mesmo Kia Rio, tornam-se em ardilosas armadilhas para essa
pequena notável. No fim o que mais me impressionou foram suas retomadas. O turbo
enche rápido e despeja potência de sobra em sua tração traseira, onde devia
estar, e a relação peso potência zera a inércia e o carro que já estava voando faz
uma meta-decolagem para outra dimensão.
Podia falar do alto índice cadeira-elétrica causado pelo
turbo lag, de seu banco de carro de corrida com “0” regulagem (bye-bye
Presidento), ou ainda da improvável falta de necessidade de ter que trocar as
cuecas eventualmente e tê-las deixado para trás, mas meus olhos cegos pelo amor
não perceberam nada disso. Ficou o gozo e a satisfação de ter cruzado o Sunny
State numa máquina tão incrível. Experiência extrema, ocupou o lugar mais alto no
pódio das minhas experiências automobilísticas. Como a mulher da minha vida, é inigualável e inesquecível.


Casé,
ResponderExcluirNo comments! Sensacional!!!
Abraços!
Fui teletransportado pra dentro de um 4C.... Caracas belíssima narrayiva. Pena ao invés de um britânico o proprietário podia ter sido um polaco louco por carros e histórias... E aí teríamos não uma narrativa mas uma novela!
ResponderExcluirQuando me dei conta, estava prendendo a respiração enquanto lia. Casé, você escreve com paixão, lindo relato.
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