terça-feira, 26 de dezembro de 2017

No mundo do vinho: as primeiras coisas primeiro

As vezes nos assustamos com a própria ignorância. Conversando com o meu guru dos vinhos, Rodolfo Moura da @Adega_do_Rodolfo, me dei conta de que negligenciava uma das mais básicas referências na hora de escolher minhas garrafas.



O vinho é um produto industrial, que passa por um processo ultra controlado e tecnificado nos dias de hoje. Foi-se o tempo que as coisas eram baseadas no cheiro, tato, paladar e visão do mestre vinhateiro. Dizem até que o mosto conversava com seu dono enquanto fermentava.

Tempos atrás esses conhecimentos eram baseados em tradições , empirismos e muita intuição. Hoje a vinicultura é uma ciência. Os enólogos, profissionais responsáveis pela vinificação, são preparados nas mais concorridas escolas mundo à fora, com destaque para a honorável Faculté dOenologie de Bordeaux.

Se o Vini hoje é mais controlado, sem o Viti nada feito. A Vitivinicultura é indissociável.

Apesar de ser um produto industrial o sangue de cristo depende muito mais do imprevisível que qualquer outra bebida. Como diria Michel Rolland: “A gênese do bom vinho reside na primeira brisa da primavera no Gironde”.

Antes de tudo o Vinho nasce da agricultura, e a agricultura tem pilares solidamente definidos. Contudo, um pilar é ainda mais instável que palafitas no brejo.

Com certeza todo conhecedor de vinhos já ouviu falar das esplendorosas safras bordalesas de 1947, 1961 ou mesmo 1982. Um Chateau Margaux 1981 custa metade de um 1982 e o mesmo que um 1984 ou 1983. Acontece o mesmo se compararmos um 1961 com um 1962 ou 1963.

Isso parece quase óbvio quando falamos de Bordeaux ou da Borgonha. Mas vale para o resto do mundo? A resposta é um resplendoroso SIM!

A criação da vida, a base de tudo, depende de 5 itens principais: solo, genética, homem, água e luz. Esses itens perfeitamente equilibrados dão bom resultado.

O solo, ou terroir como os franceses chamam, é o mais estável de todos. O Medoc já era o Medoc antes mesmo do primeiro homem pisar na terra. A genética, ou a escolha da melhor planta, é mais recente. Mas já sabemos o que esperar de uma vinha do La Gravière du Lafite em produção há mais de 130 anos, e também de uma jovem vinha “menor de idade” das Bodegas Caro na Argentina, para ficar nos domínios de Rothschild.

O homem - ah o homem! - é certamente a coisa mais instável que Deus produziu. Para a sorte do apreciador do vinho ele responde muito bem à recompensa, principalmente a monetária após o advento da moeda. Assim, o que era o caos se faz rocha com uns bons trocados e não influencia tanto na produção agrícola, fazendo o manejo adequado.

Sobra o sol, a chuva e o vento. Um caldeirão imprevisível resultante em luz+água+temperatura que irá definir tudo e se chama clima. Tenha um terroir Premier Cru com vinhas espetaculares, ressuscite Paul Pontallier para cuidar da vinificação, compre o melhor equipamento do mundo, contrate os melhores agricultores da borda direita e se São Pedro não comparecer a festa não resultará em vinho bom. É simples. No fim tudo está na mão de um Santo!



Sol e calor demais faz a baga amadurecer rápido e gera uva sem concentração, de menos não gera o açúcar suficiente. Chuva de menos não resulta em boa florada e consequentemente derruba a produção. Chuva durante a colheita derruba a uva madura do pé. Mesmo nas desérticas regiões dos andes o clima pode ser devastador ou uma benção. Tudo está na mão de São Pedro.

A qualidade da safra é peça chave!

Me dei conta disso falando com o professor do início do texto sobre a degustação de Final de Ano da Confra de Vinhos na casa do marchand Fabricio Carata (Vendemmia Vinhos Especiais). Na seleção de vinhos havia um dos meus preferidos, um Valdivieso Caballo Loco Sagrada Familia. Já tinha experimentado o 2009, o 2011 e recentemente o 2013. Sempre ficando impressionado e muito satisfeito. Sempre achei interessante a filosofia da vinícola na construção vanguardista dessa série de rótulos (composto por vários vinhos que merece um post especial). Mas aconteceu um desastre. O vinho da safra de 2014 estava quadrado, quase intragável. Uma zurrapa dificilmente bebível. O que teria havido? Como eram várias garrafas pedi para os garçons conseguirem amostra de outro vaso. Mesma decepção. O quer teria acontecido?

Finalmente, a moral da história: A safra de 2014 no Valle del Curicó, lar do Grand Cru Sagrada Família, foi a pior dos últimos 20 anos. Satisfeito? Poderia apostar que os rótulos de vários vinhos desta safra e região ficaram prejudicados. Que acha de fazer uma pesquisa? Uma degustação vertical usando safras boas e ruins seria ótima idéia para clarear o conceito.

Daqui pra frente a Primeira Coisa que Farei Primeiro é lançar mão das tabelas de safra, disponíveis em todos os grandes veículos do meio (veja abaixo). Junto a isso vou acender uma vela para o guardião das chaves do céu sempre que pensar em tomar uma garrafa.

https://www.robertparker.com/resources/vintage-chart

http://www.winespectator.com/vintagecharts/search

http://www.decanter.com/learn/vintage-guides/

https://www.winemag.com/wp-content/uploads/2017/01/Vintage_Chart_2017.pdf (para o WE)