Neste final de ano fui presenteado pelo meu amigo e
conselheiro em enologia, Dr. Rodolfo Moura, da @adega_do_rodolfo, desta vez não
com o puro néctar mas com uma espécie de mapa do tesouro.
Quase que intuitivamente sempre fiquei atraído por bons números
estampados nas garrafas e anúncios como os do Wine Spectator (WS), Wine Enthusiast
(WE), James Suckling (JS), Jancis Robinson (JR), entre outros. Por algum motivo
misterioso o índice “Robert Parker” (RP) - que na verdade é uma evolução
personalíssima do índice Wine Advocate (WA) - quando acima de 90 ligava uma
chave química interna que me fazia querer provar aquele vinho mais que outros. Hoje
sei que nunca foi à toa.
O mapa veio em forma de livro – O Imperador do Vinho de Elin McCoy
– que conta a saga do mais mítico crítico de vinhos de todos os tempos: Robert
Parker Jr. Amado por uns, odiado por outros e seguido por muitos. O fato é que
o livro é muito bem escrito, para ler sem parar, e muito elucidador. Vamos a um
pequeno review da descoberta...
Antes da chegada de Vossa Majestade ao mundo do vinho nos
anos 60 já se classificava numericamente os vinhos há algum tempo, mas nas
curiosas escalas de 0 a 5, 0 a 10, 0 a 16 e 0 a 20. Talvez inspiradas no
complicado sistema numérico inglês (conhece a história dos xelim, penny e
pence? Já pensou no que se baseou o Imério Britânico para definir a polegada ou
o pé para medir dimensões?), visto que foram os ingleses que começaram a
ranquear os vinhos franceses logo após a Segunda Guerra Mundial.
A resposta britânica veio aos próprios franceses que
anteriormente usavam classificações como “magnifico” e “desbundante” para dizer
o que acharam de um vinho ou outro. O que seria melhor? Magnifico ou
Desbundante?
Bob tropeçou em Bordeaux quase que sem querer, seguindo sua
primeira paixão, e foi surpreendido como na França de então achar um bom vinho
era uma dificuldade, principalmente para um yankee não francófono. Bebericou,
gostou e arrumou sua segunda paixão. Leu tudo o que havia disponível sobre o
tema em inglês e começou a anotar todas as suas impressões, e como João e Maria
foi criando uma trilha de migalhas pelos chateaus e crus para achar o caminho
de volta aos seus tonéis preferidos e para evitar aqueles com gasolina dentro.
Tempos depois, já experimentado na escala 1 a 20 utilizada
por Hugh Jonhson e compartilhada no seu livro Wine, percebeu que ela não era intuitiva
e bolou uma escala mais “S.I.” de 0-100, sendo que os abaixo de 50 eram
considerados análogos a lixo tóxico.
Parker se diferenciou dos demais que apareceram até alí por
ser uma espécie de Madre Teresa do vinho, o mais justo dos justos, o defensor
do consumidor etílico. Bem pouco americano e ao mesmo tempo totalmente
americano. Fazia por prazer. Ele provava de tudo e pagava suas bebidas e
comidas, como qualquer cliente, pois acreditava que se recebesse benesses e cortesias
de qualquer um isso poderia levar as suas criticas a serem interpretadas como tendenciosas.
Levou muito tempo para ele provar um vinho “de graça”, e sob rígidas circunstâncias.
Há 20 anos lí o livro Grandes Segredos de um Headhunter, de
John Wareham, e
ele incentivava que um profissional procurasse algo para fazer que lhe desse
prazer fora da sua atividade principal. Se essa segunda atividade pudesse ser
remunerada seria um grande diferencial, mas que o potencial vencedor seria
aquele que conseguisse que sua atividade principal fosse a sua paixão, pois seu
sucesso seria potencializado pelo amor envolvido. A trajetória de Parker de
advogado de um banco, passando por degustador amador, conciliando o Banco e a
Wine Advocate e enfim se dedicando a sua paixão integralmente me parece ser um
prova da tese de Wareham. Acendeu um farol do mundo.
À frente de seu tempo Parker era um politicamente correto e fazia
por amor a newsletter “The Baltimore-Washington Wine Advocate”. Não aceitava
publicidade! Seu objetivo, creia vc ou não, era a sustentabilidade. Os demais capitalistas
faziam pelo dinheiro trazido pela publicidade e secundariamente pela venda dos “guias”
em si. O primeiro estava acima de qualquer suspeita e o mundo seguiu o seu mapa
da mina. Os demais, apesar da suspeição, passaram a vida toda lutando por
credibilidade e um segundo lugar. No mercado de mapas do tesouro, conseguiram ser
talvez lanternas que iluminavam um caminho já mostrado.
O Bob tinha razão e eu o segui intuitivamente. Gostava mais
dele que dos demais, mas ouvia todo mundo. Seguir as trilhas de migalhas
worldwide raramente leva a algo intragável. Apenas cuidado! Os inescrupulosos
costumam usar uma pontuação de 2010 para vender uma garrafa de 2015. No Brasil,
país do jeitinho, é bem comum essa prática.
O cerne das discussões de credibilidade em torno disso tudo é o gosto. O
pessoal e intransferível. Um amigo, hoje Ministro, me disse certa vez: “Gosto,
cú e Fusca branco, cada um tem o seu”. A Jancis não gosta do mesmo que Mr. Suckling,
que dificilmente tem o mesmo paladar idêntico ao de Sir Broadbent, MW. Claro que
isso serve também para o Grande Líder, que definiu o que deveria ser buscado
baseado no seu próprio gosto, gerando a demanda dos seus inúmeros seguidores, incrementando
o preço de seus achados e levando a oferta, muitas vezes fazendo com que
tradições fossem às favas pela ganância, se adaptassem ao seu gosto. Um
pecadinho compreensível.
Não vou estragar o livro com Spoilers, mas devo admitir que
hoje eu mais no Bob que ontem. Que ele definiu o mercado do vinho como vc
conhece hoje. Ao que parece influenciará por muito tempo, até sua máquina
degustadora pifar, e esse leitor vai de hoje em diante caçar sabendo que essa
mancha no couro do lombo do catete é sinal de carne boa.
O Mapa apontava que eu podia seguir os outros Mapas.
Ps: Hoje eu sei que o Wine Spectator é digno de ser seguido.
O índice Descorchados (DS) merece ser
estudado e localmente os pontos atribuídos pela revista Adega (AD) não devem
ser desconsiderados. Claro que nessa linha antiguidade é posto!
















